-E aí, como está?
-Bem e você?
-Bem.
Isso foi o que dissemos quando nos encontramos após algumas semanas de aflição. As coisas aconteceram muito rápido e de repente. Um dia estávamos juntos conversando sobre nossas vidas, um outro não nos vimos mais, apenas nos falamos por telefone e mesmo assim com dificuldade, pois nossos horários são incompatíveis, mas conseguimos nos comunicar e conversar a respeito das aulas. Que aulas? As aulas de inglês.
Estudava inglês comigo, mas teve que deixar o curso por problemas financeiros, então lhe ofereci ajuda. Estudar inglês em outro lugar. Eu estava disposto a ajudá-lo porque sentia algo diferente quando estava perto dele. Um sentimento estranho de amizade distante e desconhecida. De alguma forma eu podia compreendê-lo, principalmente seu olhar, que parecia um poço profundo o qual não conseguia sair de dentro e me perdia caindo e caindo...
-Nossa! Que lugar interessante. Não pensei que era dessa forma. Olhando de fora não dá pra perceber o quanto é grande aqui dentro.
-Por aqui.
-Isto é uma escada?
-Por que o espanto?
-Não pensei que fosse uma escada, já disse que lá de fora não dá pra perceber.
-Me diz uma coisa. O que você quis dizer com aquela mensagem de ontem, não entendi?
É verdade. Antes do chegado momento eu enviara uma mensagem pelo celular perguntando quando e à que horas nos encontraríamos. Ele enviara a resposta instantaneamente, mas não resisti e mandei um outro torpedo em inglês perguntando se ele estava livre ou estudando muito. Não obtive resposta. Achei que a tivesse ignorado e nem dado importância a uma mensagem tão inútil e sem graça, no entanto, me espantei quando me perguntou o significado da mensagem:
-Que mensagem?
-Perguntando se eu estava livre ou estudando muito.
-Ah! Mas o que você não entendeu? Achei que foi bem objetiva.
Paramos de subir as escadas naquele momento, nos olhamos e percebi que talvez ele interpretara a mensagem de uma outra maneira e fiquei pensando de que forma ele teria interpretado aquela mensagem tão simples e objetiva. A situação estava ficando um pouco embaraçosa, logo expliquei:
-Você estuda à noite, não é?
-Sim.
-Eu só queria saber se você estava estudando naquela hora.
-Ah tá!
Percebi que não era bem isso que ele esperava que eu dissesse, mas era tarde para continuar o assunto porque a escada nos havia guiado até a recepção que por sinal achei estranha ser tão longe da entrada. Afinal por que a chamaríamos de recepção?
Ele pediu para falar com a diretora e eu observava o lugar. Achei muito bem organizado e bonito, um bom lugar para estudar e dar aulas.
-Boa tarde, como se chamam?
-Rodrigo.
-Miguel.
-Sou Silvana. Entrem por favor. Fiquem à vontade.
-Este é meu amigo o qual lhe disse alguns dias atrás.
-Tudo bom?
-Tudo bem.
-Bom, Rodrigo, me lembro do seu pedido e creio que não haverá problemas se vocês usarem uma de nossas salas. Inclusive temos uma sala pequena ideal para as aulas de conversação. Mas preciso tirar algumas dúvidas sobre essas aulas:
-Sim. O que quer saber?
-O que exatamente pretendem fazer?
-Como lhe disse, eu estudava inglês na Fisk mas agora não posso continuar o curso. Não posso ficar parado caso contrário esquecerei tudo que aprendi até agora e isso não é interessante para mim...
-Então eu me ofereci para ajudá-lo. Disse-lhe que poderíamos nos encontrar e estudar juntos em aulas de conversação.
-Muito bem eu entendi. Mas tenho uma outra proposta a vocês dois.
-Qual é a proposta?
-Vocês não querem ser voluntários e dar aulas de inglês pra pessoas que não podem pagar um curso?
-É interessante.
-Podemos.
A palavra final foi minha e depois de decidirmos os horários das aulas de conversação saímos do centro de convivência. Estava ancioso e ao mesmo tempo nervoso porque estávamos juntos, conversando e combinando formas de dar aulas.
-Aonde vai agora?
-Preciso ir para o cursinho?
-Onde fica?
-Na Avenida Vital Brasil.
-Estou de carro se quiser uma carona?
Nem pensei direito e já estava dentro de seu carro. Fomos para sua casa. Conheci sua mãe,no entanto teve de deixar seu carro porque sua mãe precisaria dele. Fomos tomar um ônibus. Foi tudo muito estranho e diferente. Nós conversamos sobre muitas coisas e mesmo assim parecia que havia um buraco entre nós, algo que queríamos dizer mas que era difícil transformar em palavras. Sentia em seu olhar o indecifrável sentimento de compreender tudo e nada ao mesmo tempo e sabia que isso ainda não era o fim.
-Tenho que descer.
-Até outro dia Rodrigo.