sexta-feira, 22 de abril de 2011

O telefone

O telefone não toca.

TOCA!

Não toca nunca.

TOCA!

Grita, de repente.

Atendo:

Alô!

Alguém fala.

Quem fala?

Não sei.

Quem é?

Olá!

Oi.

A ligação cai e

O telefone não toca mais.

Diante dele espero.

Não toca.

Espero.

Não toca.

Desisto.

Grita novamente.

Atendo:

Alô!

Ninguém responde.

Alô! Quem fala?

Ninguém diz nada.

És tu, Marcos?

Tu...tu...tu...

Quem era?

Não sei.

Não tocou mais.

Desisti de esperar.

Era noite, então fui dormir.

Sonhei e vi

Marcos morria,

Marcos sofria.

Marcos, onde estás?

Marcos, para aonde foste?

O telefone acordou-me,

Gritando, berrando que Marcos estava morto.

INSANIDADE

Conheci uma pessoa diferente de mim, conheci um outro Eu em outra pessoa diferente de mim e por isso me apaixonei. Agora, estou sentindo muita dor no peito por causa desse outro alguém que conheci e que amo. Não sei o que fazer, nem mesmo o que vai ser de nós dois. No momento estamos distante porque tenho medo, disse isso a ele, mas acho que ele não compreendeu. Tenho medo de me relacionar com outras pessoas, tenho esse problema, sou anti-social. Mas, gosto da solidão. O problema é que agora não estou mais sozinho, antes era muito mais fácil, pois era somente eu e minha consciência, enquanto agora sou eu e ele e minha consciência. Tudo isso me confunde e por estar confuso sofro mais uma vez.

Hoje, quando me levantei e fui à janela, lembrei-me de algo muito bom, lembrei-me de Deus. Olhei o céu e vi que as nuvens eram as mesmas nuvens brancas e o sol continuava sendo o sol, então me olhei no espelho, mas não vi o mesmo eu de sempre. Mudei, mudei completamente. Meus olhos começaram a derramar lágrimas de remorso pelo que eu tinha feito na noite passada, olhei novamente o céu e pedi perdão pelo que tinha feito. Meu deus! Por quê? Por que tive que...

Estou só novamente.

A pessoa que conheci não vive mais em mim, a pessoa que conheci morreu pelas minhas mãos na noite passada, quando disse-lhe que amava outro, mas não disse que esse outro era um outro eu dentro de mim. Ele não compreendeu e foi-se, dizendo que para mim ele estava morto. Quando o vi parti, chorei porque iria matá-lo de verdade, mas ele não sabia o quanto eu o amava, e por amá-lo tanto é que o matei.

Hoje, quando penso nele, lembro-me que ele me amava, mas...

Hoje, quando olho o céu, peço a Deus que me perdoe porque matei aquele que vivia em mim, um outro Eu em outra pessoa diferente de mim e por isso eu havia me apaixonado e destruído este amor, porque gosto da solidão.

-E aí, como está?

-Bem e você?

-Bem.

Isso foi o que dissemos quando nos encontramos após algumas semanas de aflição. As coisas aconteceram muito rápido e de repente. Um dia estávamos juntos conversando sobre nossas vidas, um outro não nos vimos mais, apenas nos falamos por telefone e mesmo assim com dificuldade, pois nossos horários são incompatíveis, mas conseguimos nos comunicar e conversar a respeito das aulas. Que aulas? As aulas de inglês.

Estudava inglês comigo, mas teve que deixar o curso por problemas financeiros, então lhe ofereci ajuda. Estudar inglês em outro lugar. Eu estava disposto a ajudá-lo porque sentia algo diferente quando estava perto dele. Um sentimento estranho de amizade distante e desconhecida. De alguma forma eu podia compreendê-lo, principalmente seu olhar, que parecia um poço profundo o qual não conseguia sair de dentro e me perdia caindo e caindo...

-Nossa! Que lugar interessante. Não pensei que era dessa forma. Olhando de fora não dá pra perceber o quanto é grande aqui dentro.

-Por aqui.

-Isto é uma escada?

-Por que o espanto?

-Não pensei que fosse uma escada, já disse que lá de fora não dá pra perceber.

-Me diz uma coisa. O que você quis dizer com aquela mensagem de ontem, não entendi?

É verdade. Antes do chegado momento eu enviara uma mensagem pelo celular perguntando quando e à que horas nos encontraríamos. Ele enviara a resposta instantaneamente, mas não resisti e mandei um outro torpedo em inglês perguntando se ele estava livre ou estudando muito. Não obtive resposta. Achei que a tivesse ignorado e nem dado importância a uma mensagem tão inútil e sem graça, no entanto, me espantei quando me perguntou o significado da mensagem:

-Que mensagem?

-Perguntando se eu estava livre ou estudando muito.

-Ah! Mas o que você não entendeu? Achei que foi bem objetiva.

Paramos de subir as escadas naquele momento, nos olhamos e percebi que talvez ele interpretara a mensagem de uma outra maneira e fiquei pensando de que forma ele teria interpretado aquela mensagem tão simples e objetiva. A situação estava ficando um pouco embaraçosa, logo expliquei:

-Você estuda à noite, não é?

-Sim.

-Eu só queria saber se você estava estudando naquela hora.

-Ah tá!

Percebi que não era bem isso que ele esperava que eu dissesse, mas era tarde para continuar o assunto porque a escada nos havia guiado até a recepção que por sinal achei estranha ser tão longe da entrada. Afinal por que a chamaríamos de recepção?

Ele pediu para falar com a diretora e eu observava o lugar. Achei muito bem organizado e bonito, um bom lugar para estudar e dar aulas.

-Boa tarde, como se chamam?

-Rodrigo.

-Miguel.

-Sou Silvana. Entrem por favor. Fiquem à vontade.

-Este é meu amigo o qual lhe disse alguns dias atrás.

-Tudo bom?

-Tudo bem.

-Bom, Rodrigo, me lembro do seu pedido e creio que não haverá problemas se vocês usarem uma de nossas salas. Inclusive temos uma sala pequena ideal para as aulas de conversação. Mas preciso tirar algumas dúvidas sobre essas aulas:

-Sim. O que quer saber?

-O que exatamente pretendem fazer?

-Como lhe disse, eu estudava inglês na Fisk mas agora não posso continuar o curso. Não posso ficar parado caso contrário esquecerei tudo que aprendi até agora e isso não é interessante para mim...

-Então eu me ofereci para ajudá-lo. Disse-lhe que poderíamos nos encontrar e estudar juntos em aulas de conversação.

-Muito bem eu entendi. Mas tenho uma outra proposta a vocês dois.

-Qual é a proposta?

-Vocês não querem ser voluntários e dar aulas de inglês pra pessoas que não podem pagar um curso?

-É interessante.

-Podemos.

A palavra final foi minha e depois de decidirmos os horários das aulas de conversação saímos do centro de convivência. Estava ancioso e ao mesmo tempo nervoso porque estávamos juntos, conversando e combinando formas de dar aulas.

-Aonde vai agora?

-Preciso ir para o cursinho?

-Onde fica?

-Na Avenida Vital Brasil.

-Estou de carro se quiser uma carona?

Nem pensei direito e já estava dentro de seu carro. Fomos para sua casa. Conheci sua mãe,no entanto teve de deixar seu carro porque sua mãe precisaria dele. Fomos tomar um ônibus. Foi tudo muito estranho e diferente. Nós conversamos sobre muitas coisas e mesmo assim parecia que havia um buraco entre nós, algo que queríamos dizer mas que era difícil transformar em palavras. Sentia em seu olhar o indecifrável sentimento de compreender tudo e nada ao mesmo tempo e sabia que isso ainda não era o fim.

-Tenho que descer.

-Até outro dia Rodrigo.

Coragem

-Rodrigo,tenho que lhe dizer algo importante.

-Diga.

Seus olhos me encaravam fixamente me puxando cada vez mais forte, com mais atração, um ímã. Sentia que não conseguiria dizer. Ele me olhava, esperando que eu dissesse, esperando minha fraqueza me dominar completamente, esperando que meus desejos gritassem do meu peito para fora e declarassem o sentimento. Ele apenas esperava paciente, estático, estátua. Com olhos miúdos, misteriosos e profundos me fitava. Senti medo quando minha boca se abriu para falar. Voz nenhuma saiu, som nenhum, nada.

-Pode parecer estranho, mas...

-Se não falar não saberei.

Ele queria ouvir o que tinha em meu peito, em minha mente, em minha alma. Definitivamente eu iria dizer. Não conseguia, não articulava as palavras para dizer o necessário, o indispensável, tudo.

-Parece que está com dificuldades em assumir.

-Assumir o quê?

Perguntei com uma forte pontada no peito: medo. Batia forte a dor crescente em minha alma, meu coração dizia que ele já sabia e esperava. Eu não podia, não agüentaria. Sentia sem aceitar:

-A responsabilidade.

Era isso. A responsabilidade era grande demais. Não era para mim. Contudo não sou de desistir. Não sou covarde. Sou forte. Sou mulher de assumir:

-Não tenho medo da responsabilidade.

-Então fala.

-Falo.

-Fala.

-Não.

-Não!?

-Não.

Prólogo

Tudo que passou foi apenas o inicio. Não sei do futuro, mas sei que meu passado foi muito sombrio.

Meia Noite...

Estou na Rua 12 de uma Avenida qualquer. O vento frio sopra do norte. Estou só apenas, e diante do maior desafio de minha vida. Tenho uma decisão a tomar...

Meia Noite e um...

Sinto em meu peito uma dor intensa, meu coração parece não bater. Sinto que estou perdendo minhas forças e sendo transportado para outro lugar. Ainda consigo andar, pouco, minhas pernas me obedecem. Ando lentamente sem rumo qualquer. A lembrança de outrora volta. Sinto-me cansado, mas não posso parar, sei que alguém se aproxima.

Meia noite e vinte...

Estou sem armas. Estou sem coragem. Estou com medo...

Meia noite e vinte cinco...

Não há ninguém na cidade que pode me socorrer. Começo a sangrar pelo o peito...Estou fraco. Caio...

Escuridão...

Eu sinto a solidão nos olhares frios,

No sorriso triste daqueles que me espiam.

Eu sinto culpa nos meus ombros fracos,

No meu peito aberto pela fina lâmina

Da espada em chamas.

É meu sangue vinho escorrendo lentamente

Pela espada prata do guerreiro negro.

É minha dor aumentando à medida

Que se aprofunda a ferida feita pela mão inimiga.

Quando se morre por dentro

E sustenta-se uma imagem

Pelo o olhar do outro,

Pela indiferença

É mostrar o falso sentir-se bem

É sorrir e não ser feliz.

Ainda não me livrei do espelho.

Ainda não me livrei do reflexo.

Ainda não sou totalmente único

Porque sei que a multiplicidade

Enraíza-se mais na alma humana.

Não sinto nada de anormal no viver humano,

Os erros que outros cometem,entendo-os de forma natural.

Os erros que eu cometo às vezes me fazem pensar

Sinto não ser normal e sei que existe um mistério que desconheço

Temas e figuras apresentam-se em um poema

E tentamos identificar o que significam as palavras

Mas por que o desejo de saber das coisas

Quando as coisas não são o que realmente parecem ser

Vivi situações diversas e confesso que me sinto enganado

Em relação aos relacionamentos humanos

Vivi situações em que tive de escolher o melhor,

Mas o que se apresenta como melhor opção

Entre duas opções ruins não é realmente a melhor atitude

Temas e figuras estão presentes na vida de cada um,

Quando um pássaro solitário tenta voar

Quando este mesmo pássaro tenta viver e não se sente mais sozinho

Por ter encontrado um outro pássaro semelhante

Quando ambos confessam que se amam

E planejam construir seu ninho

Quando tudo que tinham planejado se desmorona da árvore escolhida

Porque uma serpente aproximou-se de um deles

Quando a mentira e a traição vem à tona e desvendam segredos ocultos

Quando a vida continua para um deles por amar o outro o perdoa

Isso é figura.

E o tema, não vale à pena dizer...

Este fogo que sinto em minha face

Arde como uma ferida feita à lâmina

De uma espada que atravessa a carne

De um homem que luta pela vida.

Este fogo que se alastra continuamente

Não há de se apagar simplesmente

Está aos poucos consumando

Meu coração.

Fogo, lâmina, espada...

Força, Ferro, Fado...

Esta dor que sinto em minha alma

Arde como uma fagulha enfiada no dedo

E por mais que tento retira-la

Foge, escondendo-se, rindo-se

De minha desgraçada sorte...

Mais queria eu cortar meu dedo

Que sentir esta inescrupulosa humilhação...

A cor da Morte


Momento de desespero. Uma noite longa e triste. Ele sonha na noite fria, e em seu sonho sofre sem entender o que se passa em si exatamente. Vê-se correndo, fugindo de algo desconhecido, coberto pelas sombras. Corre com velocidade, tentando alcançar o longe distante para não ser capturado pelas trevas que o perseguem. Olha para trás. Não consegue enxergar o que deixou no passado. Olha à frente e o futuro ainda não está nítido. Sua visão se escurece com o pôr do sol, a noite se aproxima de sua alma, seu coração está frio, triste e distante. Onde estou? Para aonde devo ir? O que preciso fazer?

Não sabe, pois.

Momento de dúvida: aproximou-se de um abismo. Não sabe se deve deixar-se cair ou jogar-se por si, consciente da morte. A morte aproxima-se, diz-lhe:

- Abandone-se em meus braços.

Lágrimas escorrem como sangue de um coração ferido, dilacerado, morto.

Olha a face da morte, é branca. Por quê?

O branco sempre representou a vida. Por que a morte é branca?

Talvez...

- Não tenha medo. Sou morte ao seu sofrimento. Sou remédio à sua doença. Após mim, não há mais dúvidas. Comigo há somente compreensão. Sou sua mãe e você é meu filho. Não tenha medo, porque sua hora de ser feliz é o momento quando mãe e filho tornam-se um.

- Não.

- Por quê?

- Quero viver.

- Por quê?

- Quero ser poeta.

- Por quê?

- O mundo precisa de mim.

- Sua hora chegou.

A morte estendeu suas mãos, tentando alcança-lo. Seus dedos longos eram frios como mámore. Segurava com força o poeta que chorava. Não o deixaria viver, sua hora havia chegado. Ambos caíram no abismo, sumiram nas trevas.

Quando o sol nasceu, o homem que dormia calmamente, não se havia levantado mais. Em seu sonho encontrou a morte, libertou-se enfim da prisão do mundo. Soube que a morte tinha uma cor diferente, não era vermelho, verde ou azul. Era branca.

sábado, 9 de abril de 2011

Eu

Ás vezes me perco em minhas próprias ideias.

Meus pensamentos diluem-se em águas profundas,

E tento enxergar a mim mesmo no reflexo do lago sem fim...

Me olho e não me vejo,

tento tocar minha imagem e não consigo.

Tento desesperadamente saber quem sou,

E tudo sobre mim são sombras destorcidas.

Reflexo, imagem, sombras...

Quem é esse que em mim vive?