segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Desejo


Finalmente iria para casa. Deu sinal para que o ônibus parasse. Entrou. Esperava o ônibus há duas horas. Teve um dia extenuante. Visitou a Cidade Universitária com um amigo e, de lá, seguiram para a Liberdade. Nunca fora à Liberdade. Tudo era novo e desconhecido para seus olhos castanhos e curiosos. Observava as pessoas e notava detalhes discretos. Nos lugares aonde ia não deixava de notar minudências. São Paulo é magnífica. Pode-se encontrar de tudo em cada parte dessa cidade maravilhosa. Gostava dali. Uma metrópole misteriosa, que nos envolve com suas ruas e atrações diferentes.

Olhou rapidamente as pessoas que ali estavam e atravessou a catraca com facilidade, pois não tinha muita gente. Sentou-se, olhando a cidade passar ligeiramente pela janela. Percebeu que o dia terminava e junto com ele sua folga do trabalho. Amanhã teria que voltar à rotina estressante de todos os dias. Mas, não se preocupava naquele momento, estava apenas aproveitando o fim da tarde. Olhou o céu. Lindo! O crepúsculo é uma dádiva de Deus, um fenômeno esplêndido e admirável, suas cores suntuosas davam vida às nuvens e o sol semelhava despedir-se das pessoas; das cidades; e pressagiar a chegada da noite.

Pensava na vida e nos seus sentimentos. Estranho, mas sentia-se assim quando estava no ônibus, rodeado por pessoas que não o conheciam. Será que estavam pensando na vida também? Talvez sim. Talvez não. Talvez não estivessem nem mesmo pensando, afinal, pensar cansa e ninguém quer cansar-se com qualquer distração, principalmente após um dia de trabalho extenso. As pessoas trabalham todos os dias, todas as horas, todos os minutos e sempre.Elas nunca têm encontram tempo para pensar na própria vida, na sociedade, no mundo, no futuro.

Olhava discretamente aqueles que estavam perto. Uns dormiam despreocupados com a viagem e o destino. Outros, calados, olhavam para o nada além da janela e mundo afora, absortos em um momento de transe inerte impensantemente imóvel. Contudo, alguém havia magnetizado sua atenção logo após entrar no ônibus: um homem. Por que os homens lhe chamavam a atenção?

Olhava fixamente o homem que passava pelo corredor. Seus olhos eram claros e vestia roupas comuns: camiseta preta, calça jeans, tênis e usava uma mochila. Era alto e belo.

Disfarçou seu interesse quando ele se aproximou. Sentiu vertigem, algo forte em seu peito revirava-se, remexia-se violentamente e ascendia do estômago à boca, transformando-se em esputo de anseio. Sentiu esse fluxo percorrer todas as partes de seu corpo.

O homem ao seu lado percebeu-o, mas demonstrou-se indiferente. Como todos os outros; este o ignorou.

A força de uma energia estranha, invisível, prendia-lhes os olhos, impedindo-lhe os pensamentos, impedindo-lhe a respiração da razão, forçando os seus sentimentos ocultos. Olhou novamente o homem ao seu lado. Muito próximo. Passou os olhos minuciosamente por seu peito, percorreu seu abdome e lentamente deslizava a visão mais para...

Até que...

Disfarçou. Ele havia percebido. Porém, apesar de tê-lo notado, não se afastou, aproximou-se discretamente, encostou as pernas nas mãos deste que estava na poltrona. Pessoas tinham que passar para o fundo do ônibus, que estava quase cheio. À medida que o corredor lotava-se de gente, seu coração exuberava-se de anseios e desejos excêntricos.

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