segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Conto II

Lembrança

A lua brilha no céu, ruas desertas, e apenas dois homens encontram-se no centro daquela pequena cidade:

" Não faça isso." Um homem vestido completamente de preto, aponta uma arma em direção ao outro.

" Você não entende, eu devo..."

" Não faça isso, lhe imploro, pois não quero fazer o que você me obrigará a fazer caso prossiga." O homem de preto insiste e a arma ainda apontada ao outro, que parecia não temer a ameaçadora pistola à sua face, aproxima-se.

Ennis levantou-se lentamente e olhou profundamente nos olhos de seu agressor. Naquele momento ambos os homens, ali presentes, viajaram a um outro lugar, outro mundo, parados, imóveis, olhavam-se nos olhos um do outro até perceberem a absurda cena que estava acontecendo.

" Somos irmãos, Roland"

" Sim, eu bem sei, mas você passou dos limites, não deveria continuar ou eu não terei outra escolha, a não ser entregá-lo ao Rei."

" É o meu trabalho, Roland, e você infelizmente está do lado errado."

" Não sou eu quem está do lado errado.Trabalho para o Rei, e o Rei, é a força absoluta e correta escolhida para governar."

" Mas que governo é este, onde as pessoas não têm segurança e morrem na miséria, porque o Rei está preocupado demais em conquistar novas terras?Enquanto o povo definha e sofre violências cada dia mais..."

"BASTA!" A voz de Roland transpassou o ar ressonando como trovão e dissipando-se como um relâmpago.

" Não permitirei que maldiga o Rei em minha presença." Disse Roland, agressivamente, apontando cada vez mais perto, sua pistola erguida, contra seu próprio irmão.

Ennis, faz parte de um movimento contra o Rei, que luta pelos direitos do povo e cobra do Rei suas promessas de melhoria. Enquanto Roland trabalha na guarda real, seu trabalho consiste em criar e armar o exército do reinado. Ele é um gênio e é capaz de construir armas tecnologicamente superiores às armas daquele tempo antigo. Roland é capaz de manusear armas de fogo e utilizar a pólvora, em outras palavras, Roland é um pistoleiro.

Um encontro entre eles nunca havia acontecido após a separação, ao 17.Cada um seguiu seu próprio destino: Ennis aliou-se aos Rebeldes, realizando movimentos revolucionários pela população;Roland foi contratado para trabalhar na armada real, após terem descoberto seus dons geniais.Porém, o primeiro encontro entre eles, após tantos anos, estava acontecendo em circunstâncias difíceis e contraditórias.

Ennis estava fugindo dos cavaleiros que receberam ordens de prenderem ou matarem os Rebeldes,se necessário. Roland sabia que seu irmão fazia parte dos Rebeldes e decidiu procurá-lo,juntamente com os cavaleiros, para encontrá-lo primeiro e convencê-lo a desistir do que fazia, no entanto, Ennis estava disposto a não mudar de lado.

"Roland, você não percebe a crueldade do Rei contra nossa gente?" Ennis continua a insistir sem temer a pistola que Roland segura.

" Não há crueldade. O povo apenas não tem noção de quanto trabalho o Rei tem, para sustentar seu Reinado, oferecendo proteção a todos." Roland argumentou.

" Desista de participar desses movimentos indesejáveis contra o Rei ou acabará sendo morto pelos cavaleiros." Disse Roland.

" Antes a morte que unir-me a um Rei devasso, egoísta e impetuoso, que não importa-se com as pessoas, apenas consigo mesmo. Enquanto existir desigualdade social, eu e meus companheiros, lutaremos até o fim." Ennis rapidamente girou o corpo em direção a Roland, e sacando uma espada escondida em suas vestimentas, atacou-o verticalmente, desarmando-o e mudando o ato da cena anterior. Roland, agora, encontra-se desarmado e ameaçado pela lâmina afiada e lusente da espada de Ennis.O homem de preto não temia a ameaça daquela arma perigosa, assim como seu irmão não temeu sua pistola, apenas passava o olhar atento, da espada aos olhos de Ennis.

A lua brilhava no céu, mas naquele instante escondia-se por entre as nuvens nebulosas, lançando sombras e trevas sobre eles.O ar pesava em seus pulmões e o frio rossava-lhes à face. Ennis não havia percebido o que Roland percebera, e esse erro o custaria a vida.

Distraído, Ennis apenas teve tempo de virar-se e livrar-lhe a cabeça da decapitação, pois um cavaleiro surgira à galope atacando-o, surpreendentemente, pelas costas. Ennis desequilibrou-se e caiu, enquanto o bravo guerreiro dava meia volta em seu cavalo de guerra, e preparava-se para um próximo ataque.

" Roland" Gritou Ennis " Não desistirei dos meus ideais." Ergueu-se empunhando a espada bravamente, e atento, esperou o cavaleiro inimigo.

" Não precisa ser dessa maneira, Ennis" Gritou Roland " O Rei não está contra o povo. Está à favor do povo."

As espadas colidiram-se, e o som dos dois metais brandiu altamente. O cavaleiro caiu. Sangue escorreu pela face de Ennis, suas pernas vacilaram de repente e ajoelhou-se, apoiando com a espada. Ennis não teve forças para levantar-se, logo não teria forças para defender-se novamente, pois o cavaleiro estava de pé com a espada erguida às suas costas, para o ataque final.

Um tiro.

Apenas um tiro foi preciso para matar o guerreiro da espada erguida. Roland, mais que de repente havia sacado uma de suas muitas pistolas que carregava consigo. Aproximou-se de seu irmão, segurou-o nos braços e olhou-o atentamente.

" Eu lutei por justiça, meu irmão..." Ennis tentava unir forças para falar, mas não conseguia mais do que seis palavras, que eram fracas e cansadas.

" Não..." Tentou, mas não conseguiu.

" Ennis, não morra!" Roland inutilmente pedia a alma de seu irmão a não deixá-lo abandonado, sozinho.

Ennis não falou mais, largando-se molemente entre os braços de Roland.Ele morreu rapidamente à luz da lua incandescente no céu, que o recebia junto a si em algum lugar no paraíso.

Roland derramou,suas únicas e últimas,lágrimas de dor e sofrimento. Seu único irmão, após tanto tempo de espera para reencontrá-lo, havia morrido em seus braços. Seu sofrimento era imenso, seu amor transformava-se em remorsos e dúvidas. E se Ennis estivesse certo? E se o povo estiver realmente precisando de ajuda? E se ele, Roland, estivesse do lado errado? Dúvidas que surgiam no seu coração, pensamentos que aprofundavam-se em um túnel obscurecido de incertezas. O que Roland deveria fazer? Não sabia.

Mais uma vez a lua brilhante escondia-se nas nuvens, e Roland paralisado, distraído, indefeso, sentiu uma dor repentina na cabeça, não sabia o que estava acontecendo, tudo havia se tornado obscuro, não era possível enxergar coisa alguma, sentiu o cheiro da terra úmida e fria do chão e viu, com dificuldade, um vulto de homem que o tinha agredido na cabeça. Seus sentidos o abandonaram, e sua dor foi levada juntamente com suas memórias.

O sol estava brilhando naquela manhã quando Roland acordou, sem lembrar-se do acontecido da noite anterior, viu o corpo de um cavaleiro morto. Não lembrou-se do que aconteceu a Ennis e onde ele estava. Observou o ferimento que tinha matado o cavaleiro e percebeu que fora ele mesmo que o tinha matado. Por quê? Como? Uma lembrança misteriosa que Roland não consegue resgatar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário