Não sei exatamente o tempo que me resta nesta vida, mas chegou o
momento certo de escrever estas memórias. Tenho esperado um longo tempo até que
as ideias pudessem surgir. Minha consciência está se perdendo aos poucos, e aos
poucos estou deixando sentimentos tão negativos e incompreensíveis tomarem
conta de minha alma. Não compreendo mais o sentido de viver. Não compreendo
minha dor. Não compreendo as pessoas. Não compreendo a realidade. Não
compreendo o mundo. Não sei exatamente o tempo que me resta nesta vida, mas
creio que não é muito. Portanto, começarei do início...
O NADA
Não havia luz naquela sala,
Não havia luz na sala onde eu estava,
Não havia reflexos nem sombras,
Não havia nada na sala onde eu estava.
A única coisa que havia era o silêncio.
Um silêncio melancólico, quase insano.
Aos poucos, meus pensamentos começavam a desaparecer.
Minha mente vagava por enigmáticos labirintos,
E minha consciência se perdia por entre as brumas do tempo.
Não havia ninguém capaz de me compreender,
Não havia ninguém capaz de me guiar.
Eu estava sozinho naquela sala escura.
E as trevas dominavam meu coração.
Foi quando um relâmpago ofuscou meus olhos
E das profundezas do meu ser despertei.
Abri a janela à minha frente e vi o universo.
E compreendi que desde de sempre não havia nada.
Voltei-me para dentre de mim,
Disposto a enfrentar meu inimigo.
Ele esperava por aquele momento
A muito tempo, aguardando o confronto derradeiro.
Eu não tinha armas nem armadura,
Ele estava em total vantagem sobre mim.
Seu conhecimento de meus desejos
Dava-lhe a força necessária de me destruir.
Olhei sem medo sua face negra
Sem expressão ou sentimento.
Ergui minha mão direita e ofereci-lhe
Uma pequena parte do meu espírito
Repleto de esperança e paz.
Ele vacilou. Tudo desapareceu.
Não havia nada mais naquela sala
Nem trevas nem dor, apenas EU.
12 ANOS
Parece que ainda tenho doze anos.
O tempo vai passando e o que resta
São vestígios inacabados de sofrimento.
Sempre sonhei com a felicidade
Inalcançável, incompreensível.
Sempre sonhei em amar plenamente.
Hoje, não sonho mais...
Parece que ainda tenho os mesmos medos.
Sinto-me uma eterna criança,
Sem infância, inocente, solitária.
Não ouso dizer que sofro mais.
Não ouso dizer que sofro menos.
A dor que sinto é inenarrável.
Não sei dizer se sinto falta de amor.
Não sei dizer se sinto falta de amar.
Não sei explicar o que falta em mim.
A dor que sinto é invisível.
E o tempo sempre passa,
Mas não leva consigo as dores do passado...
Lembranças começam a surgir...
Cansado, olhando o entardecer, observo o horizonte, aos poucos, perder
sua cor laranja e escurecer com a despedida do sol. Apenas um pensamento
preenche minha cabeça. Lembranças de um passado triste. Parece que consigo
visualizar minhas memórias como em um filme. E todas as emoções que senti
naquele momento começam a tomar conta de minha alma. Estou de volta ao passado.
Um homem alto de pé ante uma janela de um apartamento pequeno está
parado fixamente olhando uma fotografia que segura com angústia em seus olhos.
Na fotografia, três pessoas estão abraçadas, sorrindo. Uma delas é sua própria
imagem, porém dez anos mais jovem. Os outros dois rapazes igualmente jovens
estão abraçando-o, um de cada lado. Os três estavam felizes, eternamente
felizes congelados naquela foto antiga. Como o tempo passou depressa! Como a
vida muda a cada segundo! Antes feliz, hoje triste, amanhã...somente Deus
conhece...
CANSADO
Estou tão cansado de tudo e todos
Que não sinto meus pés, joelhos e
pernas.
Não sinto sentimentos ou emoções,
Não sinto o ar nos meus pulmões,
Não sinto pescoço, ombros, braços
e mãos,
Não sinto a chuva nem o chão,
Não sinto o calor e o coração,
Estou tão cansado de tudo e todos
Que não sinto minha própria
essência...
Nas horas vagas me recuso a
viver,
Nas tardes que passam quero
morrer,
Estou tão cansado de
transcendência
Que prefiro ausentar-me a consciência
Que deixar-me levar pelo
querer...
Lembranças...
Sentado ao pé de uma árvore,
me escondo embaixo de sua sombra,
o sol não pode me ver.
Observo atentamente o movimento
das pessoas e dos carros que
passam,
o sol não pode me ver.
Meu pensamento aos poucos
se distancia e viaja para um
passado distante,
o sol não pode me ver.
Lembranças de um amor verdadeiro
preenche um vazio presente,
E o sol não pode me ver.
Quanto tempo se passou,
debaixo daquela árvore?
Eu me escondendo na sombra
e o sol tentando me ver...
E naquele instante, naquele
momento de recordações, um pensamento lhe veio à mente: Morte. A única coisa
que pensava todos os dias desde a separação. Morte. A única solução para todas
as suas angústias. Morte. Não tinha mais desejo de mudar nada em sua vida. Não
sentia mais a alegria nas coisas simples. Talvez estivesse doente, talvez
estivesse com depressão. Como saber afinal? Tudo que via no mundo era
sofrimento. As pessoas que conhecia sempre tinham problemas e estavam sempre
infelizes. Desde de muito jovem, já sentira que havia questões que não
conseguia responder. Questões da alma.
Quem é você?
Além dessa questão havia o
incompreensível desejo por homens...
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